Anarquia Futebol Clube
Leonardo Calvano
12 de outubro de 2011 às 11:30h
Time
de futebol amador desmonta hierarquia, escala jogadores como técnicos
ou dirigentes, e faz o esporte voltar às origens lúdicas na várzea de
SP. Por Leonardo Calvano. Foto: Raphael Sanz
Sábado à tarde em São Paulo. O cenário: o campo de futebol amador do
Baruel, tradicional time de várzea da Casa Verde, Zona Norte, um dos
poucos que ainda resistem à especulação imobiliária da capital paulista.
Em campo, o Autônomos FC enfrentava o EC Juva, em duelo de preparação
para os Jogos da Cidade, evento esportivo organizado pela prefeitura.
À beira do gramado de terra batida, um dos integrantes do Autônomos
vestia uma camisa da seleção argentina e tentava aos berros orientar os
companheiros sobre a marcação. Ao contrário do que pode parecer, o
sujeito com a camisa argentina não era o técnico, pois no Autônomos FC
não existe técnico nem capitão. O time é administrado de forma coletiva e
sem divisões hierárquicas; todos opinam e decidem em conjunto o que
fazer em campo. Jovens cabeludos, tatuados e usando piercing e
alargadores, alguns franzinos e outros fora de forma, vestiam uniforme
preto, branco e vermelho, com o escudo que remetia à letra “A”, símbolo
do anarquismo. São músicos, jornalistas, ativistas, professores e
profissionais de diversas áreas, formados em universidades conceituadas
ou não.
A mistura naquele dia não deu certo: o time perdeu para o EC Juve por
3 a 0. No entanto, o resultado não é objetivo final, e sim resgatar a
paixão pelo futebol de maneira mais democrática possível. Assim surgiu o
Autônomos FC durante o Carnaval de 2006, em um encontro anual em Belo
Horizonte. Danilo Cajazeira, o Mandioca, que ajudava a organizar em São
Paulo a Copa Autonomia (torneio de futsal sem juízes e aberto a todos), e
Maurício Noznica, integrante do Ativismo ABC (coletivo que defende a
autogestão em todas as esferas) pensaram em montar um time após um
debate sobre torcida uniformizada e política. Convidaram times da Copa
Autonomia para fundar uma única equipe.
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Ainda existe identidade no futebol
Hoje, são mais de 75 membros divididos em dois times de futebol de
campo masculino (A e B) e uma equipe de futsal feminino. “Queríamos
antes de tudo nos divertir, independentemente de ter técnica, idade ou
habilidade. E de fazer tudo de forma horizontal, sem ninguém mandando em
ninguém. Nunca fomos um time anarquista em termos de posicionamento
político, mas estes valores sempre foram os condutores da organização
interna do time”, conta Cajazeira. Além de futebol, o Autônomos também
promove palestras, debates, música, além de intercâmbio político,
cultural e social.
Quem faz o quê e quando?
Time não tem técnico nem capitão. Ou melhor: todos são técnicos e todos são capitães. Foto: Raphael Sanz
A divisão das funções dos integrantes da equipe está ligada às
possibilidades de cada um, sejam elas financeiras, de tempo ou
disposição. Cajazeira organiza o grupo fora das quatro linhas. “Ele
daria uma aula para qualquer cartola profissional por aí”, conta Gabriel
Brito, um dos integrantes. “Arrecadamos dinheiro internamente, cada um
doa o que pode. Vendemos material do time. Também fazemos festas, rifas e
todas as coisas que todo time de várzea está cansado de fazer para
existir num país em que o suporte para o esporte amador é próximo de
zero”, explica Brito.
“O Maurício procura organizar dentro de campo, mas também é preciso
alguém de fora. Então o técnico acaba sendo alguém que está contundido
ou na reserva”. Essa função, segundo ele, é encarada da mesma forma que a
de lateral-direito ou de ponta-esquerda. “O técnico não manda, ele
organiza e sempre escuta todo mundo”, afirma. “Existe muito time de
várzea bom que não tem técnico. O problema é que no profissional tiraram
a autonomia do jogador e o tratam como criança”. Também não existe uma
seleção de jogadores, é só chegar e ir se adaptando ao time. “Tem gente
que antes do Auto nunca tinha jogado futebol de campo na vida”.
Além de promover atividades ligadas ao futebol, eles participam do
Movimento pelo Passe Livre (MPL) e organizam eventos junto à Frente de
Luta por Moradia (MFL) e à Associação Nacional dos Torcedores. “Também
temos planos de começar um time com crianças de rua e recentemente
fizemos uma campanha de arrecadação para compra e distribuição de
cobertores aos moradores de rua”, completa.
Uma sede social e cultural
O Autônomos FC recentemente criou um novo espaço que servirá também
com sede do coletivo. A Casa Mafalda – nome dado em homenagem a
personagem do cartunista argentino Quino e uma menção ao bairro Chácara
Mafalda, que abrigava o primeiro campo do time – funciona no Estúdio
Fábrica Lapa, Zona Oeste e pretende ir além do futebol. “Pretendemos
organizar tudo o que for de acordo com nossos princípios. Festas,
debates, palestras, exposições e oficinas. Queremos um lugar de
convivência, sem individualismo e sem aquela relação comercial como na
maioria dos espaços”. Além disso, atividades com a comunidade já estão
sendo planejadas. “Já recebemos propostas de aulas de teatro e yoga”,
completa Cajazeira.
O grupo se mobilizou nas redes sociais para arrecadar a verba
necessária para a construção da sede e do espaço cultural. Vale
ressaltar que, enquanto muitos discutem a transparência das contas do
dinheiro usado pela organização da Copa do Mundo de 2014, em seu site o
grupo declara todos os valores que entram e saem.
Experiência no exterior
No ano passado, o Autonômos FC viveu sua primeira experiência
internacional na Copa do Mundo Alternativa, em Yorkshire, Inglaterra,
após convite dos Easton Cowboys&Cowgirls, time fundado em 1992
dentro do mesmo conceito. “Eles viraram nossos parceiros. Já jogaram em
Chiapas, no México, com os Zapatistas, na Palestina e na Índia, e fazem
parte de uma extensa rede de futebol alternativo, muito comum na Europa e
nos Estados Unidos”, conta Cajazeira. “Esse campeonato funciona dentro
do princípio ‘faça você mesmo’, sem patrocínios e nem empresas
terceirizadas. Os próprios times organizam a tabela, um faz a arbitragem
do outro e, durante as noites tem festa, música e muito bate-papo.”
Para muitos integrantes que vieram do movimento punk e anarquista, a
experiência foi ainda mais rica, já que eles se hospedaram em squats
ingleses, as famosas casas ocupadas. “Passamos 10 dias em um. Aprendemos
demais sobre organização, enfrentamento com o estado e a polícia, e
sobre internacionalismo. Trouxemos muitas coisas para nossas práticas,
tanto dentro como fora de campo”.
O próximo compromisso no exterior será em Jesús Maria, na Argentina,
em 2012. A Copa América Alternativa surgiu da parceria com o time local
Clube Atlético Social y Deportivo Ernesto Che Guevara, fundado há quatro
anos com as mesmas ideias e ensinamentos socialistas propagados pelo
líder revolucionário, que viveu próximo de lá, em Córdoba. “A ideia é
integrar através do futebol crianças e jovens de todas as classes
sociais para ajudar na formação delas como pessoas, reforçando valores
pregados por Che, como solidariedade e dignidade”, contou Mónica
Nielsen, presidente do clube de Córdoba, uma das sedes da Copa América.
Conheço o site da equipe:
www.autonomosfc.com.br