martes, 8 de mayo de 2012

Pep Guardiola, o jogador que pôs Romário na Copa de 94. Homenagem e reflexões.

Danilo de Assis Clímaco
Esse título sensacionalista é quase totalmente falso. Mas só quase totalmente. 
Pep passa para o Romário dar o drible
da vaca no Alkorta e fazer um dos gols
mais lembrados do Barça, o primeiro
dos 5 contra o Madrid naquele jogo.
A história do Romário com a Copa de 94, muita gente lembra: no final de 92, ele ficou na reserva de Careca e Bebeto em um amistoso e reclamou. O orgulhoso Zagalo, segundo treinador da seleção, vetou futuras convocações do Baixinho. Mas nas eliminatórias de 1993 o Brasil jogava sem nenhum brilho, sendo que o Romário tinha sido contratado pelo Barcelona e tava arrasando na pré-temporada. 

Então, pouco antes do jogo do Brasil contra o Uruguai, que definiria o classificado para a Copa, o Barcelona fez seu primeiro jogo do campeonato espanhol, contra a Real Sociedad, ganhando com três gols do Romário. Aí o Parreira, técnico da seleção, disse que contra essa evidência não havia nada que fazer, passou por cima do Zagallo e convocou o Romário. O Baixinho meteu dois gols no Uruguai, nós fomos à Copa e trouxemos o tetra.

Onde entra o Guardiola nessa história? Foi ele que deu os três passes de gol, está aqui o youtube que não me deixa mentir: http://www.youtube.com/watch?v=wgLlvzhYqd4 (entre o 0min52s e o 1min36s; o vídeo é dos 30 gols do Romário na temporada 93-94, dez dos quais a passe direto do Guardiola). Ou seja, se o Guardiola não colocou o Romário na Copa de 94, o deixou na porta. 

Agora, o interessante é que, como Dunga, Mazinho e Mauro Silva, o Guardiola era volante, o único de um time que jogava só com um zagueiro e dois laterais. Ou seja, ele era o quarto jogador mais recuado do time e, no entanto, era quem dava mais passes de gol. A tradição recente do futebol brasileiro não pode conceber jogadores assim, pois a principal missão do volante é terminar o jogo do adversário, não começar o próprio, como no Barcelona de Johan Cruyff (1) em diante.

Só assim podemos entender como, mesmo sem outra virtude defensiva que a inteligência tática, o franzino Guardiola se transformou no maior intérprete das idéias do técnico holandês, a ponto de que certa vez, quando pediram ao Cruyff que fizesse o melhor onze de todos os tempos, entre óbvios como Beckenbauer, Nilton Santos, Pelé, Maradona ou Garrincha, ele colocou o Guardiola. Vocês vão achar que isso não tem cabimento e eu não vou negar, mas temos que convir que se o Cruyff se engana, não pode ser sem uma mínima base na realidade. Guardiola era, de fato, excepcional. Ficava ali no centro do campo, pouco se movia, pois tinha duas habilidades incríveis: visão panorâmica do gramado e precisão milimétrica nos passes: tinha um olho para receber a bola e outro para ver o campo, antecipava movimentos de próprios e alheios e em um segundo repassava o couro para seu companheiro melhor colocado. Dava passes curtos e também grandes lançamentos, mas o que sempre me deixou admirado foram seus longos passes rentes ao chão que, sabe-se como, não tinha perna contrária para interceptar. Passes de dezenas de metros tão bonitos como este: http://www.youtube.com/watch?v=qCy0KjDmf3U -para um golaço do Romário- ele deve ter dado alguns milhares nos seus mais de 400 jogos como futebolista. Formidável.

E a excepcionalidade de seu talento se enlaçava com uma maturidade surpreendente. Em 1994, nas vésperas da final da Copa de Europa que terminou com uma dolorosa derrota de 4 a 0 para o defensivo Milan de Capello, ele deu uma entrevista a El País na qual mostrava uma lucidez própria de um veterano, que não do menino de 23 anos que era. Já então ele se debatia entre a idéia de passar toda a vida profissional no Barcelona e a de rodar o mundo jogando bola e aprendendo, que foi o que aconteceu: com 30 anos, ele foi à Itália, onde jogou duas temporadas. Depois, outras duas no Qatar -onde foi treinado pelo ex-santista Pepe-. Começou então a fazer o curso para ser treinador, mas ainda deixou-se convencer pelo amigo Lilo e foi jogar mais seis meses no México. 

O técnico Cruyff, o jogador Guardiola
Tenho cá pra mim que aquela derrota para o Milan foi um dos fatores imporantes pelo qual ele não se aposentou no Barça. Pep foi pra Itália para viver e aprender da antítese do futebol holandês. Não porque ele tivesse se deixado catequizar pelos vencedores, mas porque teve ciência de que a herança de Cruyff somente poderia ser assumida para ser aperfeiçoada. Um time com jogadores maravilhosos como Romário, Serge, Guardiola, Stoichkov ou Koeman não poderia ter sido completamente dominado por um time de talento muito inferior, como aquele Milan. Mas foi, como também já o tinha sido em outros momentos: a consigna do Cruyff de que os jogadores tinham que sair a campo para se divertirem se enfrentava com sérias dificuldades quando se encontrava com um time de grandes zagueiros bem organizados.

Antes daquela final, Cruyff disse que esperava que ganhasse o Barça pelo bem do futebol. Mas hoje podemos pensar que o melhor pro futebol foi o Barça ter perdido. Guardiola, o mais novo daqueles jogadores derrotados, foi o suficientemente frio como para não deixar que a alegria fosse amargada. Iniciou um longo processo de aprendizagem que resultou, quinze anos depois, no mais perfeito jogo de futebol contemporâneo. Obviamente, o Barça do Guardiola treinador não foi perfeito, mas era capaz de sempre propor um futebol criativo sem o perigo de ser completamente desarticulado. Foi uma síntese do futebol ofensivo e do futebol defensivo, com a primazia clara do primeiro. Do futebol holandês vem a necessidade de tratar bem a bola desde a defesa. Do italiano ele observou a retranca e tomou dela aquilo que mais valia: a arte de ocupar os espaços, algo que os menos favorecidos fisicamente poderiam aprender (2).

Fica aqui então esta minha homenagem a um ídolo de minha adolescência. Escrevê-la em português é uma forma de atiçar a imaginação de nós brasileirxs, referências mundiais do futebol arte... pela força do passado, mais que pela dos nossos princípios. O meio campo é a alma de um time, mas nós o povoamos de volantes e passamos a viver da velocidade dos laterais e da capacidade resolutiva dos atacantes. A dificuldade desse sistema para gerar  meio-campista do nível dos que tivemos outrora ficou pateticamente patente quando o Barça ganhou do Santos por quatro a zero na final do Mundial de Clubes e o meio-campista de maior projeção do país, o Ganso, disse que sequer se imagina jogando no Barcelona, dada a superioridade dos seus homólogos catalães. Não em vão o nosso último grande time, o São Paulo do Telê (3), já tem mais de vinte anos. Tá passando da hora de que surja uma nova geração de treinadores brasileiros que refunde a ofensividade do nosso futebol.

Enfim, para que o futuro venturoso chegue (ou que o passado glorioso regresse), é preciso sonhá-lo. Deixemos então nossa imaginação começar a acreditar ser possível um volante como o que aparece fazendo estas jogadas:


Grande passe do Guardiola para o Iván que terminou em um golaço absoluto do Romário que o indecente do bandeirinha mal anulou. Estou indignado até hoje. Alías, esse jogo do Barcelona contra o Atlético, foi o melhor que já vi, com três gols computados pelo Romário - além de dois anulados – vale a pena ver todo o resumo: http://www.youtube.com/watch?v=JliQ2Am3qhQ


Esse vídeo é sobre a participação do Romário no 5 a 0 contra o Real Madrid, mas da para ver muito do jogo do Guardiola, inclusive o passe para o mais lembrado dos gols do Romário em Barcelona  (entre o 1min05s e o 2min15s)

Dezoito passes de gols do Guardiola, compilados pelo Paradigma Guardiola, site do Matías Manna: 
 

"Así jugaba Pep Guardiola", também compilado pelo Paradigma Guardiola, são todas as intervenções do Pep em um mesmo jogo, da para ver claramente como ele antes de receber a bola já sabia para quem passar, impressionante:
 

Terminemos, então, com o convite para que vocês visitem o site do  Matías Manna:
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(1)  O Cruyff, ele sim, foi o grande responsável pelo fato de Romário ter ido à Copa de 94. O Baixinho teria ficado na irrelevância mediática do PSV não fosse o fato do técnico holandês ter insistido muito com a diretoria do Barcelona para trazê-lo ao time.

(2) Vejam no maravilhoso site Paradigma Guardiola -de um fã que o segue antes dele ser treinador- algumas das reflexões do Pep que denotam este interesse de união entre o italiano e o “espanhol” (que é o que venho chamando nesse artigo de holandês... mas é bem verdade que a Espanha -a Catalunha especialmente- merece hoje um lugar próprio no futebol arte): http://www.paradigmaguardiola.blogspot.mx/2006/07/guardiola-sobre-el-campen-del-mundo.html.

(3) Aliás, em 1992, o São Paulo do Telê também dominou completamente o Barça do Cruyff e do Guardiola. Foi uma sorte para esses últimos que a final do Mundial de Clubes terminasse só dois a um para os paulistas. Um ano depois, em um jogo mais equilibrado, esse São Paulo ganharia também do Milan de Capello.

Homenagem de uma revista francesa ao pai, ao filho e ao espírito santo: Cruyff, Guardiola & Messi.





Guardiola quando era gandula do Barcelona, pedindo a camisa do ídolo Víctor Muñoz
Momento tietagem: eu no Camp Nou para ver o Barça de Pep&Messi, no dia em que o substituo do Pep, o Xavi, se tornava o futebolista com mais jogos com o Barça. O jogo terminou dois a um, com gols do Pedrito, que o Pep levou da terceira divisão à primeira equipe.



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Falso anexo:

Era Guardiola. Ano II. O Império Contra-ataca.

Esse é o título de um textinho que ia escrever em 2009 sobre aquele 'novo' Real Madrid que gastou 300 milhões de euros comprando jogadores para contra-restar o Barça tri campeão do ano anterior, enquanto o Barcelona continuava apostando pelos jogadores da categoria de base. Só que nunca escrevi o texto... mas como não queria desaproveitar o título, pelo menos vou tentar fazer uma graça aqui.

Morte ao hipercapitalismo do Madrid!

Viva a aposta comunitária do Barça!

jueves, 5 de abril de 2012

Un rasgo esencial pero muy olvidado del eurocentrismo: la usurpación de todo saber


Danilo Assis Clímaco

Ese resultado de la historia del poder colonial (la imposición de una misma identidad ‘racial’, la de ‘indios’, a pueblos muy distintos: chimús, aztecas, aymaras, etc.) tuvo dos implicaciones decisivas. La primera es obvia: todos aquellos pueblos fueron despojados de sus propias y singulares identidades históricas. La segunda es, quizás, menos obvia, pero no es menos decisiva: su nueva identidad racial, colonial y negativa, implicaba el despojo de su lugar en la historia de la producción cultural de la humanidad.
Aníbal Quijano, Colonialidad del Poder, Eurocentrismo y América Latina , 2000 (negritas mías, cita levemente modificada, texto completo aquí)

La gran suerte de Europa es haber sido un cruce de caminos
Aimé Cesaire, Discurso sobre el colonialismo (2004 [1950], p. 13).

Hace unos días escuché a uno de los grandes exponentes del pensamiento decolonial afirmar que el eurocentrismo invalida el conocimiento latinoamericano. Es una aseveración muy frecuente, pero equívoca, que ignora y contribuye a la perpetuación de un rasgo esencial y permanente del pensamiento eurocéntrico: la asimilación de los conocimientos no-europeos como si fueran europeos.

Podríamos hacer un listado infinito, pero limitémonos a algunos ejemplos: la concepción de igualdad social entre todos los seres humanos emerge con el encuentro de Europa con pueblos indígenas, notoriamente andinos y amazónicos (Quijano, 1988), las relaciones capitalistas de explotación del trabajo surgen con los musulmanes, las técnicas de explotación fabril son creaciones de esclavizadxs negrxs en el Caribe, los conocimientos etnobotánicos en las expediciones científicas europeas en Latinoamérica fueron en su mayor medida obtenidos junto a las/os originarias/os de nuestro continente. Así, el conocimiento científico, la democracia, el capitalismo o sus fábricas no son solamente europeos como aprendimos a creer. Son conocimientos de  muchos pueblos, de largas e interconectadas historias, articulados según los intereses de quienes dominaban y dominan en eso que hoy conocemos como Europa.

La vida humana es única a cada momento, no puede dejar de reinventar su propia historia siquiera bajo severa dominación. Y lxs dominantes solo pueden perpetuarse como tales si lo comprenden y constantemente reencaminan la vida de las gentes dominadas según sus intereses. El eurocentrismo no invalida el conocimiento de los otros pueblos, sino que los asimila según sus intereses, a la vez que oculta o ignora el carácter de usurpación de ello.

Este mundo lo hacemos constantemente dominadxs y dominantes, “indígenas” y “negras/os” y “europeas/os”, en medio a conflictos que los/as últimas/os logran torcer en larga medida hacia sus intereses. Suponer que el conocimiento no-europeo es simplemente invalidado, es aceptar tácitamente que Europa marca el ritmo del mundo y que Latinoamérica vive en otra dimensión. Es desconocer nuestra historia, nuestra humanidad.

P.D.: Jaime Coronado y Pablo Quintero, a quienes agradezco por leer y debatir las ideas arriba, me recomendaron aclarar que eurocentrismo no es etnocentrismo, es decir, no es meramente la valoración del saber de mi pueblo como superior al de los demás. Eurocentrismo es sobre todo la imposición como hegemónico de un determinado modo de conocer, impulsado por los intereses burgueses, sobre los demás modos de conocer del mundo, incluso los que había en “Europa”. No hay aquí espacio para adentrar más en esas cuestiones, les recomiendo hacerlo en esta maravillosa obra: Colonialidad del poder, eurocentrismo y América Latina, de Aníbal Quijano.


Bibliografía

CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre el colonialismo. Madrid: Akal Ediciones, 2006. En Internet: http://www.ceapedi.com.ar/imagenes/biblioteca/libros/173.pdf.

QUIJANO, Aníbal.     Modernidad, Identidad y Utopía en América Latina. Lima: Ediciones Sociedad y Política, 1988. En Internet: http://es.scribd.com/doc/60929758/9/MODERNIDAD-IDENTIDAD-Y-UTOPIA-EN-AMERICA-LATINA

QUIJANO, Aníbal. Colonialidad del Poder, Eurocentrismo y América Latina. In.: Lander, Edgardo, comp. Colonialidad del Saber, Eurocentrismo y Ciencias Sociales. CLACSOUNESCO 2000. En Internet: http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/lander/quijano.rtf.

lunes, 2 de abril de 2012

Declaração de Celendin: Por uma Cajamarca agropecuária, turística e livre da mineração contaminante

Nos dias 28 e 29 de março de 2012, foi realizado o Grande Encontro Unitário de Frentes de Defesa, Rondas Camponesas (1) e Organizações Sociais da região de Cajamarca. O documento final do Encontro – a “Declaração de Celendin”.

“Cajamarca foi o lugar onde há mais de 500 anos a civilização do ouro se impôs a sangue e fogo. Mas nossa cultura andina baseada no respeito e no cuidado da terra e da água não foi eliminada. Os cajamarquinos atuais nos sentimos orgulhosos de nossa terra, durante os anos 60 e 70 lutamos para que a terra fosse de quem a trabalha, lutamos para que acontecesse a reforma agrária. Nossos pais e mães sofreram muito para que hoje nós tivéssemos a propriedade da terra. No entanto, a inícios dos anos 90, chegou uma nova febre do ouro. Yanacocha começou suas operações no ano de 1993, sendo denunciada na 4ª Fiscalía Provincial Penal de Cajamarca, por usurpação de terras e intimidação de camponeses em cujas terras ingressaram com pessoal armado para exigir que vendessem as terras baixo ameaça de expropriação ou imposição de servidões mineiras. Muitas famílias venderam suas terras porque acreditaram nas palavras de que a empresa mineira era pequena, duraria pouco, usaria tecnologia de ponta, daria trabalho e não haveria contaminação.

Depois de quase 20 anos de mineração, algumas famílias se beneficiaram das rendas mineiras, mas a grande maioria continua pobre e numerosas lagoas desapareceram, muitos rios morreram e agora recebem águas de má qualidade, bombeadas. Vários de nossos companheiros rondeiros (policiais comunitários) foram assassinados por não ter aceitado dinheiro da corrupção e por defender as águas: Juan Montenegro Lingán, no ano de 2004 em Pulán, Isidro Llanos Chevarría em Combayo e Esmundo Becerra Cotrina em agosto e novembro de 2006.

As leis de Fujimori, Toledo e Alan García serviram para que agora quem defende o desenvolvimento agrícola dos pequenos e medianos produtores, a água e a terra, terminemos denunciados ou presos, enquanto aqueles que contaminam, corrompem, abusam e se enriquecem com a extração dos minerais gozam de toda a proteção do Estado.

Pensávamos, porque assim nos prometeu Ollanta Humala, e por isso nós o apoiamos e acreditamos que seu governo iria mudar as coisas para que houvesse justiça, cuidado ambiental, luta frontal contra a corrupção. Acreditávamos que o governo nacional se apoiaria no governo regional para promover o desenvolvimento agro-pecuário, florestal, melhorar a qualidade da educação e dos serviços de saúde, dar-nos apoio técnico e creditício, construir e melhorar rodovias para a saída de nossos produtos.

Nossa Cajamarca é a terceira região produtora de lácteos do Peru e uma das primeiras produtoras de grãos e carnes que servem a mesa de muitos povos de nosso país. No entanto, o presidente Ollanta Humala traiu suas promessas e agora se converteu no primeiro aliado das empresas mineiras, em particular de Yanacocha, e procura impor-nos o projeto Minas Conga, sem respeitar o direito à consulta prévia, livre e informada de nossas comunidades e rondas camponesas que está amparada pelo Convênio 169 da Organização Internacional do Trabalho sobre os direitos dos povos indígenas, sem importar que o estudo de impacto ambiental de Conga fosse aprovado irregularmente pelo Ministério de Energia e Mineração, sem tomar em conta as ordens municipais e regionais que desde 2004 proibiam atividade mineira nas bacias hidrográficas, onde agora precisamente querem fazer o projeto Minas Conga, e, ainda, o governo central desconhece o longo processo de zonificação ecológica e econômica iniciado pelo governo regional anterior, que mostra ser essa bacia hidrográfica de alta vulnerabilidade ecológica, devendo ser protegida como zona protetora de águas para fazer atividades econômicas que durarão mais do que qualquer atividade não deixarão pobreza e contaminação como aconteceu com os povos mineiros que terminaram pobres e contaminados.

Conga não passa. A água é mais importante que o ouro. A agricultura e a pecuária são atividades sustentáveis e mais importantes que qualquer atividade mineira. Por isso, respaldamos plenamente a Ordem Provincial Nº 020 do Conselho Provincial de Celendín e a Ordem Regional Nº 036 que declaram a inviabilidade de Minas Conga. Vamos tomar todas as medidas de luta pacífica que por lei nos corresponde para defender nossas águas. Assim, nos comprometemos, em primeiro lugar, a fortalecer nossas organizações, nossa unidade de ação. Reafirmamos nossa declaração e os acordos que tomamos anteriormente nos encontros de frentes de defesa nas províncias de Celendín, San Marcos, Bambamarca e San Pablo. Ratificamos também a defesa da mais ampla unidade de frentes de defesas e nossas exemplares organizações de rondas camponesas, grêmios sindicais e estudantis.

Nossa luta é justa e por isso seguiremos unidos com nossa Universidade Nacional de Cajamarca, Institutos Pedagógicos, colégios profissionais, prefeitos locais que defendem a água e nossos direitos, nosso presidente regional, alguns deputados, membros das igrejas católicas e evangélicas, artistas, jovens, estudantes, professores, comerciantes, pequenos e medianos empresários, partidos políticos democráticos, pois todos somos necessários para a defesa de nossa fontes naturais de água e para conseguir a implantação de um plano de desenvolvimento baseado na promoção e inversão em atividades agrícolas, pecuárias, florestais, artesanais e de piscicultura.

E que Conga se retire de maneira definitiva de Cajamarca.

ACORDOS:

1. Reafirmamos a construção da mais ampla unidade de organizações sociais, gremiais, políticas, religiosas, estudantis, urbanas e camponesas para ter sucesso em nossa luta pacífica.

2. Daremos apoio a todas nossas autoridades que promovam e se comprometam com o modelo de desenvolvimento agro-pecuário alternativo de Cajamarca, que não se deixem corromper e continuem apoiando a luta dos nossos povos até conseguir a inviabilidade do projeto Minas Conga e impedir a entrada de atividades mineiras ilegais.

3. Organizaremos encontros, assembleias comunais, para implementar um sistema de defesa ambiental de “Guardiões das Águas” que atuem com respeito às pessoas estranhas a nossas comunidades que ingressem sem autorização das rondas camponesas e de nossas autoridades para semear divisões, alterar a paz, a ordem comunal ou promover atividades relacionadas com o avanço ou o reinício de atividades mineiras.

4. Iniciaremos ações legais na via nacional contra o fechamento de vias públicas, caminhos e acesso às lagoas que a Minera Yanacocha está realizando, igualmente contra os responsáveis dos abusos da força pública que feriu gravemente 19 de nossos irmãos ou daqueles que ordenaram detenções arbitrárias e estão usando o poder do Estado para perseguir e amedrontar nossos líderes.

5. Apoiaremos e participaremos de todas as ações que permitam conseguir a medida cautelar solicitada pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos contra o projeto Minas Conga por ter vulnerado nosso direito de consulta.

6. Organizaremos feiras e nossas festas patronais, junto ao impulso de desenvolvimento de infra-estrutura comunal, nas imediações de nossas lagoas. Igualmente, promoveremos visitas de pesquisa com estudantes de escolas, colégios, universidades e animaremos grupos de turistas de todo o país para que venham conhecer as lagoas em que preferimos o ouro azul ao ouro tóxico das empresas de mineração.

7. Realizaremos mobilizações cidadãs permanentes, com bandeiras e colação de cartazes em paredes de nossas casas e cidades que digam ¡Conga No Va!, ¡El agua es un tesoro que vale más que el oro!. Organização de festivais culturais, plantões, vigílias, marchas e também prepararemos a greve regional e a jornada macro-regional do dia 11 de abril, precedida pela mobilização de segunda-feira 9 de abril na cidade de Cajamarca.

8. Impulsionaremos a consulta prévia e o consentimento prévio, livre e informados, para os povos sobre a inviabilidade do projeto Conga, como corresponde à cautela de nossos direitos, segundo o Convênio 169 da OIT, a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indignas, a doutrina e a jurisprudência da própria Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

9. Apoiamos os acordos do plano de luta aprovados na Assembléia Macro-Regional dos Povos Amazônicos, Andinos e Litorâneos do noroeste do Peru, do dia 17 de março, em Cajamarca.

10. Coordenaremos com as direções gremiais da Central General de Trabajadores Peruanos (CGTP), da Confederación Nacional Agraria (CNA) e da Confederación Campesina del Perú (CCP), para que definam uma linha de ação exigente e não cúmplice com a renúncia que Ollanta Humala fez de suas promessas.

11. Não apoiaremos a convocatória à Assembléia Nacional dos Povos por ter sido feita sem consulta, ignorando os mecanismos de consulta e decisão democrática de nossas organizações de defesa ambiental de Cajamarca.

12. Foi fortalecido o Comitê de Comando de Luta da Região Cajamarca com um representante de cada província, sendo seus porta-vozes principais: Eddy Benavidez Ruiz do Frente de Defensa dos Interesses de la Província de Hualgayoc-Bambamarca, Milton Sánchez Cubas Secretário Geral da Plataforma Interinstitucional Celendina – Celendín, Ydelso Hernández Llamo Presidente do Frente de Defensa dos Interesses da Região Cajamarca. São também parte deste os dirigentes locais das rondas camponesas.
Celendín, 29 de março de 2012.

VIVA A UNIDADE DO POVO CAJAMARQUINO NA DEFESA DA ÁGUA!!!

O POVO JÁ SABE, CONGA É INVIÁVEL!!!

QUANDO O POVO DIZ NÃO, É NÃO!!!

CONGA NÃO!!!”


(1) Polícias comunitárias.
Nota: O original está em http://es.scribd.com/doc/87300083/DECLARACION-DE-CELENDIN.
Tradução: Danilo de Assis Clímaco

viernes, 23 de marzo de 2012

Tajo abierto, de DCT, DCerTor, Daniel Cortés

Obra del graffitero DCT, en Miraflores, Lima, en el contexto de la lucha contra la minería de Conga en Celendín, Cajamarca. Conga no va!
Para una mejor apreciación, favor hacer click sobre las fotos
Otras obras de este gran artista en: http://www.flickr.com/photos/decearte/

martes, 20 de diciembre de 2011

Lição brasileira ao futebol brasileiro

Com grande prazer vejo as análises brasileiras do baile que recebeu o Santos do Barcelona na final da copa Intercontinental. Essa mesaredonda na SportTv me parece especialmente interessante: um dos comentaristas lembra que o Flamengo que em 1981 foi campeão do mundo, arrasando o Liverpool, tinha nove jogadores formados dentro do clube, o mesmo número de formados pelo Barça no time que goleou o Santos. Em outro lugar, o Mano Menezes lembrava que o Barcelona escolheu seu estilo de jogo há 35 anos e que essa continuidade é um exemplo pro Brasil.

Outro comentarista ressalta que não só o Barça joga com três defesas, como esses três: Puyol, Abidal e Pique, sempre saem jogando e que ninguém nunca da um chutão, como fazem a miúde os beques brasileiros. O Barcelona venceu o pessimismo do Sócrates: o doutor achava que o físico já tinha se imposto no esporte e que, por tanto, valia à pena ter muitos jogadores defensivos que não sabem tocar a bola. A saída, para o Sócrates, era reduzir o número de jogadores em campo a nove. Mas no Barcelona os onze, inclusive o goleiro, têm que saber sair com a bola nos pés.

Mas é talvez nesse pragmatismo denunciado por Sócrates que reside a miséria do futebol brasileiro de hoje. Desde a década de 1980, o Brasil não tem um bom meio campo: o modelo das copas de 1994 e 2002 era o de sete ou oito defesas com dois (Bebeto e Romário) ou três (Ronaldiniho, Rivaldo e Ronaldo) atacantes. Na copa de 2006, o número de atacantes era maior, mas a ausência de jogadores de toque no meio campo impedia a possibilidade de um bom jogo.

No Barcelona, na frente dos três defesas tinha sete jogadores de meio-campo, todos eles tratando a bola maravilhosamente bem. Perguntado se havia algum segredo nisso, o técnico do Barcelona, Guardiola, disse que não, que eles só tentavam passar a bola rapidamente, que é como os pais e os avôs dele tinham dito que jogava o Brasil antes.

Quem sabe agora, que os europeus estão jogando como os brasileiros, nós sempre tão eurocêntricos não temos por vias tortas a possibilidade de regressar às nossas raízes? O sentimento de humilhação expresso pelos analistas brasileiros é uma esperança.

A tristeza é que uma reação agora já vai ser tarde para a próxima copa. A Espanha, em troca, pode fazer muito bonito. Ela tem um problema com o gol – seus grandes meio-campistas não têm muita habilidade para finalizar jogada – mas tá vindo aí uma nova geração de atacantes: Fábregas, Pedro, Callejón ou Soldado que, se conseguirem se consolidar, vão retransformar Espanha em armada invencível. Pelo menos não vai ser a Argentina que ganhe nossa copa!

Vale a pena rever os melhores momentos: http://youtu.be/kp_P8CNRAgc

miércoles, 14 de diciembre de 2011

No Peru, “modelo Lula” de governar é uma mina de ouro

Danilo de Assis Clímaco


Com a única aposta política de administrar a pobreza mediante bolsas, o governo Ollanta Humala procura impor uma mina de ouro com impactos ambientais incalculáveis a uma população organizada que, sustentada em estudos ambientais e socioeconômicos, advoga por um desenvolvimento agropecuário.

Yanacocha, a maior mina de ouro da América, cujo rendimento anual é próximo ao bilhão de dólares, está em atividade desde 1993 em Cajamarca, que se manteve nesses 20 anos como o quarto estado mais pobre do Peru.
O povo defendendo uma das lagoas a ser consumida pela empresa de mineração
Entre muitos danos sociais e ambientais, Yanacocha (nome de uma lagoa que a mina destruiu) contaminou rios, secou fontes de águas, derramou mercúrio em uma cidade, procurou intimidar e corromper o povo e as autoridades. Muitos setores da população (camponeses, ONGs, sindicatos, partidos políticos, a universidade local) vêm progressivamente fortalecendo sua posição crítica à mineração com uma série de propostas de desenvolvimento social e econômico sustentável.


No entanto, o governo peruano, cujo presidente Ollanta Humala foi eleito pelo Partido Nacionalista com apoio de parte da esquerda e com assessores brasileiros ligados ao PT, busca impor em Cajamarca uma segunda mina de ouro, denominada Conga, impulsionada pelo mesmo consórcio de Yanacocha, conformado pelas empresas Newmont, dos EUA e Buenaventura, do Peru. O projeto destruirá quatro lagoas, além de causar danos a fontes de água subterrânea e outros impactos ambientais que não podem ser calculados, pois o único Informe Ambiental a respeito foi considerado incompleto pelo próprio Ministério do Meio Ambiente.

A população, com o apoio do governador, manifestou-se massivamente contra o projeto, mediante uma greve geral de 14 dias, acatada por quase 200 povoados e desproporcionalmente reprimida pelo governo central com a declaração de Estado de Emergência em Cajamarca (o que somente governos militares tinham feito), detenção de dirigentes sociais e o não repasse a Cajamarca do orçamento estabelecido por lei.

Estas medidas militarizantes não apenas violaram os direitos da população, como causaram uma crise no governo que levou à substituição do primeiro ministro (com menos de quatro meses de governo) e à perda de poder das esferas mais à esquerda no governo. O novo primeiro ministro, até então ministro do interior, militar companheiro de Humala no exército, foi um dos estimuladores do endurecimento. Ante tais despropósitos, a Coordenadora Nacional pelos Direitos Humanos, Rocío Silva Santisteban, viu-se obrigada a lembrar Humala que não deve ousar “fechar o Congresso” como o fez Fujimori 20 anos atrás.

As alternativas propostas pelos povos de Cajamarca
Desde finais da década de 1990, quando ficou óbvio que não haveria a prosperidade anunciada por Yanacocha e pelo governo Fuijmori, os movimentos sociais em Cajamarca começaram a se intensificar.

As “rondas campesinas” (justiça comunitária), estabelecidas na década de 1960 para vigiar o roubo de gado e que nos anos oitenta e noventa conformaram a defesa das comunidades contra a guerra entre o exército e o terrorismo, passaram a dirigir seus esforços à contestação dos abusos de Yanacocha e outras empresas mineradoras que buscam estabelecer projetos na região (entre elas, a Vale do Rio Doce, que contratou ex-terroristas e ex-traficantes como “guarda-costas”).

Nas cidades, ONGs e a universidade desenvolveram estudos que demonstraram os impactos ambientais, além de oferecerem apoio político e jurídico aos afetados pela empresa mineradora ou criminalizados pela justiça. A igreja progressista se somou às lutas, assim como comitês de bairros afetados pela mineração.

Os sindicatos e partidos políticos de esquerda acataram as demandas sociais, sendo que os dois últimos governadores foram eleitos graças às campanhas anti-mineração. Estes governos contrataram equipes de engenheiros – muitos dos quais com uma formação política progressista – que, entre outras contribuições, desenvolveram com a participação da população a Zonificação Ecológica e Econômica (que permite estabelecer as potencialidades das diversas zonas de Cajamarca) e estão atualmente terminando o Ordenamento Territorial, que determinará quais zonas estarão aptas para quais atividades econômicas, inclusive a mineração.

Apesar do Ordenamento Territorial estar inconcluso, já há um consenso entre os movimentos sociais: a mineração pode e deve ser realizada, sempre e quando não extrapole determinados limites, entre eles o de não realizar-se em nascentes ou em bacias hidrográficas, como no caso de Conga.

Uma referência constante dos movimentos, é o Norte do estado, onde os camponeses, inclusive minifundistas, conformaram uma rede que exporta, entre outros produtos, café e cacau. Ainda que enfrentando revezes importantes, com disputas e dissensões internas, o avanço dos movimentos é importantíssimo, não apenas porque crescem em número, como porque avançaram em suas respectivas organizações internas, na articulação entre os movimentos e na concretude de suas propostas alternativas.

O estado atual do conflito e como apoiar Cajamarca
Há cinco dias a greve foi suspensa e o governo, em contrapartida, finalizou o Estado de Emergência. O projeto Conga está paralisado enquanto não se realiza um novo estudo de impacto ambiental, ao respeito do qual será difícil encontrar um consenso; a situação nos próximos meses continuará tensa e a atitude do governo nacional é a de procurar deslegitimar os movimentos sociais e enfrentá-los ao governo de Cajamarca.

Entre a democratização e uma catástrofe humana e ambiental…
Se as organizações de Cajamarca oferecem alternativas claras de desenvolvimento agropecuário, se a população de Cajamarca está em sua maior parte contra a mineração em nascentes, por que um governo nacionalista, com uma relativamente importante presença de esquerdistas em suas filas, se aliou incondicionalmente às empresas mineradoras?

O motivo é claro: o ‘modelo Lula’ de governar se estabeleceu no imaginário político da região: os ricos se fazem mais ricos e os pobres recebem bolsas, Rafael Correa ou Humala não tem vergonha de reconhecê-lo. O governo Humala se elegeu prometendo muitos programas sociais e, para cumpri-los, acreditou ser necessário um pacto com as empresas mineradoras: estas pagariam mais impostos a cambio de receberem apoio governamental para seus projetos impopulares.

E, ao parecer, não há um plano B. A política linha-dura em Cajamarca parece ser um aviso do que virá nos próximos cinco anos. Mas há indícios de que os movimentos sociais não vão renunciar tão facilmente aos avanços que conseguiram nos últimos anos. O cenário pode ser, então, o de um aumento progressivo da violência por parte do governo e das empresas. A criação de exércitos paramilitares, formado por contingentes de ex-terroristas e traficantes, e uma escalada da violência semelhante à que se vive em México é uma terrível, porém factível, possibilidade.